O que muitos consideram uma atração turística da cidade de
Roma é na verdade um Estado independente, com selos e moeda própria e que tem
como chefe de governo o papa. O Vaticano tornou-se um Estado em 1929 quando,
pelo Tratado de Latrão, firmado entre Mussolini e o papa, este abdicou de seu
poder temporal sobre Roma, exercido pela Igreja há séculos. Talvez você possa
ir a Roma e não ver o papa, mas não deve deixar de conhecer a Basilica di San
Pietro e os museus do Vaticano.
A entrada do Vaticano se dá pela Piazza San Pietro, onde o
papa fala ao povo. A enorme praça, rodeada por galerias e colunas, obra de Bernini,
foi construída ocupando parte da área de um antigo circo romano, lugar onde os
primeiros mártires cristãos teriam sido sacrificados. No centro está um
obelisco trazido do Egito por Calígula.
F • Os museus do Vaticano só abrem até as 16h;
chegue cedo e deixe para visitar a basílica depois do almoço.
• Há uma distância
de aproximadamente 2km da Piazza San Pietro até a entrada dos museus. No
período da manhã, um ônibus faz a ligação entre ambos a cada 30 minutos.
• Às
quartas-feiras, antes das 13h ou 14h, pode ser difícil visitar a basílica, pois
o papa recebe seus fiéis na porta dela… E a entrada é proibida enquanto ele não
termina de abençoar cada um dos visitantes, que formam uma longa fila.
• Quem quiser ver o
papa deverá comparecer domingo, antes do meio-dia, sabendo que irá deparar com
uma multidão de fiéis esperando que o pontífice apareça na sacada da basílica.
Para falar com o papa e ser abençoado por ele, só às quartas-feiras pela manhã,
fazendo o pedido por escrito e com antecedência na Secretaria do Vaticano.
Basilica di San Pietro
Na Piazza San Pietro fica a basílica de mesmo nome, construída
originalmente por ordem de Constantino a partir do ano 324, sobre o local onde
o apóstolo Pedro, bispo de Roma, teria sido crucificado por volta do ano 64.
Arqueólogos descobriram no subsolo da igreja túmulos do início da era cristã.
Será que um deles é de fato o de São Pedro? Cientistas e historiadores estão
tentando desvendar essa questão. No começo do século XVI, a antiga igreja foi
inteiramente reconstruída a partir dos planos de Donato Bramante, e a obra
prosseguiu comandada por Sangallo, Michelangelo, responsável pela cúpula, e
Carlo Maderna, que desenhou a nova fachada.
O interior impressiona pela grandiosidade, principalmente da
cúpula de Michelangelo, uma obra-prima. Para apreciá-la, procure um canto com
menos trânsito de turistas. Não importa seu fervor religioso: a obra é de
deixar qualquer um fascinado. No chão do templo, inscrições em bronze comparam
o tamanho da catedral – a maior de todas – com outras grandes igrejas do mundo.
É o espírito de competição italiano… É em San Pietro que está a famosíssima
estátua Pietà, de Michelangelo (protegida por vidros blindados depois da
tentativa de depredação por um maluco). Na época em que a obra foi executada,
ainda não era usual que os artistas assinassem suas obras. Diz-se que certa vez
Michelangelo viu um grupo de lombardos na Basilica di San Pietro admirando sua
Pietà, mas atribuindo a autoria a um escultor milanês. Ficou irado! À noite, voltou
à Basílica e, com seu formão, inscreveu na estátua: ANGELUS BONAROTUS
FLORENTINUS FACIEBAT (“Feito pelo florentino Ângelo Buonarotti”!).
A basílica guarda outras preciosidades, como o imenso
Baldacchino, de Bernini, em estilo barroco, sobre o suposto túmulo de São
Pedro, e a estátua de bronze de São Pedro, obra de Arnolfo de Cambio, cujo pé
está desgastado pelos toques e beijos dos fiéis. Há ainda diversos monumentos
funerários que são verdadeiras obras de arte, como os túmulos de Gregório XIII,
de Urbano VIII e de Alexandre III, obra de Bernini, à esquerda, no fundo da
nave. É possível subir até a cúpula. O elevador o levará até o terraço, mas o
restante do trajeto até o alto deve ser feito por uma escadinha apertada. A
vista lá de cima é espetacular.
Museus do Vaticano Os museus do Vaticano são um espelho da
riqueza acumulada pelos papas ao longo de séculos de poder temporal. Eles
contêm obras das mais variadas, espalhadas por enormes galerias:
Os papas
Quem se acostumou à pregação pacifista dos paas atuais
geralmente não tem ideia do que foram os sumos pontífices no passado. Apesar de
São Pedro ser considerado o primeiro papa, na verdade essa denominação não
existia; ele teria sido o primeiro chefe da igreja católica, bispo de Roma.
Séculos se passariam antes que o papa garantisse sua autoridade sobre a Igreja
e que esta instituição se consolidasse, tornando-se cada vez mais poderosa. O
cristianismo — e a Igreja — só deslancharam quando o imperador Constantino
concedeu liberdade de culto à nova religião, mais de 300 anos depois do
nascimento de Cristo.
Ao longo da história houve papas e papas. Alguns foram
hábeis diplomatas e tiveram papel importante na história, como Leão I (Leão
Magno), que salvou Roma de ser saqueada pelos hunos em 451 e posteriormente em
455 pelos vândalos. Leão Magno conseguiu também consolidar a Igreja e impor uma
disciplina interna.
Outros, entretanto, foram corruptos e devassos, como
Alexandre IV, da família Bórgia, que assumiu a Igreja no final do século XV.
Além de ter uma relação suspeita com a própria filha (sim, ele teve vários
filhos com mulheres diferentes!), Alexandre era famoso por envenenar seus
desafetos e por outras atitudes que escandalizaram o mundo de sua época, como ameaçar
excomungar sua amante Giulia Farnese se esta se deitasse com o próprio marido!
Outro papa de triste memória foi Sisto IV (1471/1484), que autorizou a
Inquisição espanhola, a mais cruel de todas.
O nepotismo, a corrupção e os meios esquisitos de levantar
fundos, como a venda das indulgências por Leão X (quem pagava uma soma à Igreja
era absolvido de seus pecados e garantia seu lugarzinho no céu), provocaram
divisões entre os cristãos e propiciaram o aparecimento de reformadores como
Lutero.
É preciso entender que na época os papas não tinham, como
hoje, apenas um poder religioso e uma autoridade moral, mas principalmente um
poder temporal. Roma e boa parte do centro-sul da Itália eram Estados
Pontifícios, territórios governados pela Igreja, que tinha até exércitos.
Mais recentemente, a Igreja teve grandes papas, como Leão
XIII que, em 1891, preocupado com a situação miserável do trabalhador na Europa
de sua época (quando até crianças eram obrigadas a trabalhar até 14 horas por
dia), editou a Rerum Novarum, um documento revolucionário para sua época.
Apesar do seu conteúdo progressista, a encíclica esbarrou na estrutura
conservadora da própria Igreja, o que prejudicou sua efetiva aplicação. Quem se
interessa pelo tema pode assistir ao filme Daens, um grito de justiça, a
respeito de um padre belga que resolveu tomar a encíclica ao pé da letra.
João XXIII foi outro papa com preocupações sociais, bem como
Paulo VI. O papa João Paulo II, apesar do seu perfil conservador no que diz
respeito à moral sexual e à contracepção, destacou-se pela postura claramente
favorável à liberdade dos povos, à tolerância religiosa e à paz mundial, desde
a década de 1980, quando se opôs ao domínio soviético na Europa do Leste,
particularmente na Polônia, sua terra natal. Merece registro sua posição firme
e crítica à guerra petroleira de Bush contra o Iraque: “Aqueles para quem se
esgotaram as alternativas pacíficas oferecidas pelas leis internacionais
assumem uma grande responsabilidade diante de Deus, de sua consciência e da história”.
(O problema é que suas palavras não chegaram aos ouvidos da maior parte dos
norte-americanos, que além de não serem católicos, tinham suas TVs ligadas em
canais “patrioteiros”).
Bento XVI acena com um papado tão ou mais conservador do que
o de João Paulo II. Porém, se conseguir manter a mesma grandeza moral, já terá
realizado um grande feito.
Atrações no Vaticano
o Museu Pio Clementino, com esculturas do período
greco-romano (entre elas o Apollo del Belvedere e o Laocoonte); o Museu
Egípcio; o Museu Gregoriano Profano; o Museu Pio Cristiano, com esculturas,
sarcófagos antigos e pinturas medievais; o Museu Etrusco; e o Museo
Chiaramonti, arqueológico, com mais de 800 peças do período greco-romano. Há
ainda os apartamentos de Júlio II, com pinturas de Rafael, onde está sua
obra-prima a Escola de Atenas, salas com mapas antigos e outras atrações.
Claro, tudo dependerá de seu interesse por uma seção ou por outra, mas a
Cappella Sistina é algo que você não deve perder. Construída a partir de 1477,
ela tem esse nome em homenagem ao papa Sisto IV, e é decorada com pinturas dos
maiores mestres italianos, como Perugino, Botticelli, Cosimo Rosselli, Domenico
Ghirlandaio, Pinturicchio, Piero di Cosimo, Luca Signorelli e Michelangelo, que
pintou no teto o imenso e famosíssimo Juízo Universal, obra na qual trabalhou
de 1536 a 1541. Foram cinco anos gastos numa só pintura… Mas que pintura!
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